Você já sentiu como se houvesse um juiz interno apontando o dedo para cada uma das suas ações ou para o comportamento de quem está ao seu redor? Essa é a essência da distorção cognitiva conhecida como “deveria”. Todos nós temos valores e objetivos, mas quando transformamos nossos desejos em leis universais e inegociáveis, criamos uma armadilha emocional que gera um cansaço mental constante. O que muita gente não percebe é que essa cobrança não se limita ao que exigimos de nós mesmos; ela se estende como um véu sobre as outras pessoas e até sobre a forma como achamos que o mundo deveria funcionar.

O TRIBUNAL INTERNO: QUANDO A REGRA É CONTRA VOCÊ
Essa distorção acontece com frequência na nossa própria mente quando tentamos nos motivar através de regras rígidas e expectativas irreais. É o famoso “eu deveria ser mais produtivo” ou “eu não deveria sentir medo”. O problema é que, ao usar o “deveria”, você não está se incentivando, mas sim se punindo por ser humano. Quando a realidade não atinge esse padrão de perfeição que você criou, o resultado inevitável é a culpa, a vergonha e a sensação de que você nunca é bom o suficiente. A motivação baseada na culpa é pesada e, a longo prazo, acaba drenando a sua energia em vez de ajudar você a crescer.
A COBRANÇA SOBRE O OUTRO: O PESO NAS RELAÇÕES
O “deveria” também é um grande vilão nos nossos relacionamentos. Muitas vezes, projetamos o nosso manual de regras pessoal nas outras pessoas, acreditando que elas “deveriam” agir exatamente como nós agiríamos. Frases como “ele deveria saber que eu estava triste” ou “ela deveria ser mais organizada” são exemplos clássicos. Quando o outro não segue o roteiro que escrevemos para ele (geralmente sem avisá-lo), sentimos raiva, ressentimento e amargura. Esquecemos que cada pessoa tem sua própria história, seus próprios “deverias” e sua própria forma de demonstrar afeto e responsabilidade.
O MUNDO COMO INIMIGO: A DEMANDA PELA JUSTIÇA ABSOLUTA
Além de nós e dos outros, estendemos essa distorção para o funcionamento do mundo e da vida em geral. Ficamos frustrados e revoltados quando o mundo não segue o nosso senso de ordem ou justiça: “o trânsito não deveria estar assim”, “não deveria chover hoje” ou “as coisas deveriam ser mais justas”. Embora seja natural desejar um mundo melhor, transformar esse desejo em uma exigência rígida só nos traz sofrimento desnecessário. O mundo é complexo e muitas vezes caótico; quando exigimos que ele se comporte conforme a nossa vontade, acabamos em um estado de irritação constante com coisas que fogem totalmente ao nosso controle.
NO FUNDO, O USO CONSTANTE DO “DEVERIA” AGE COMO UMA BARREIRA INVISÍVEL QUE IMPEDE O PROCESSO DE ACEITAÇÃO E A NOSSA CAPACIDADE DE ADAPTAÇÃO
Para que possamos superar qualquer dificuldade, o primeiro passo fundamental é olhar para a realidade exatamente como ela é, mas o “deveria” faz o oposto: ele nos mantém brigando com os fatos, gastando uma energia preciosa em uma versão da vida que não existe. Essa resistência cria uma rigidez mental que trava o nosso movimento; se a sua mente está ocupada demais repetindo que uma situação “não deveria estar acontecendo”, ela não consegue se abrir para a pergunta mais importante: “o que eu posso fazer agora com o que eu tenho?”. Ao abrir mão dessas cobranças rígidas, você para de lutar contra o inevitável e libera espaço para se adaptar, encontrar soluções criativas e caminhar com muito mais leveza através dos desafios.
COMO DESARMAR O “DEVERIA”: TROQUE A LEI PELA PREFERÊNCIA
Uma técnica poderosa para lidar com essa distorção é observar a sua linguagem e tentar substituir termos rígidos por termos mais flexíveis. Experimente trocar o “deveria” por “eu gostaria de” ou “seria melhor se”. Em vez de “ele deveria ser mais atencioso”, tente pensar: “eu gostaria que ele fosse mais atencioso, mas entendo que ele tem o jeito dele”. Essa pequena mudança troca a imposição pela preferência. Transformar leis em desejos permite que você se adapte aos imprevistos e às diferenças alheias sem se quebrar no processo, trazendo muito mais leveza para os seus dias e para os seus encontros.

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